Testamos um modelo matemático de previsão da apuração: acertos, erros e próximos passos
Na noite de 25 de outubro, enquanto acompanhávamos a apuração do 2º turno na nossa página /apuracao2026, rodamos em paralelo um modelo matemático que tentava estimar, a cada nova leitura do TSE, a chance de cada candidato terminar na frente.
Antes de tudo, o que esse modelo não é:
- Não é pesquisa eleitoral nem projeção oficial.
- Não foi publicado durante a apuração. Rodou fora do site, só para nós, como teste interno.
- Não é um serviço que oferecemos.
O resultado que vale é o do TSE: Lula 51,79% (64.256.232 votos) e Flávio Bolsonaro 48,21% (59.826.041 votos), com 100% das seções totalizadas às 23h27.
Este texto conta como o teste foi. Os acertos ocupam pouco espaço porque foram poucos. Os erros ensinaram mais.
O que o modelo faz
A cada atualização do TSE, ele olha a contagem de cada estado, compara com o resultado do 1º turno naquele estado e estima quanto o voto mudou entre um turno e outro. A partir disso, projeta o resultado final e calcula uma probabilidade para cada lado.
Antes da noite, ele foi testado com as apurações de 2010, 2014, 2018 e 2022, simulando várias ordens de chegada das urnas, inclusive ordens desfavoráveis de propósito. Em nenhuma delas apontou o vencedor errado.
No dia 25, ele fez 65 leituras, das 19h10 às 21h38, de 1,6% a 99,9% das urnas apuradas.
Por que esse modelo é importante, e para que ele serve?
Vamos ser sinceros: uma parte da graça é ver a tecnologia funcionando. Pouca coisa aquece mais o coração de quem desenvolve um sistema do que ver o próprio modelo matemático acompanhando a apuração em tempo real, leitura após leitura. Mas ele vai além do orgulho de quem escreveu o código.
A contagem parcial engana. As urnas não chegam numa ordem aleatória. Algumas regiões apuram mais rápido que outras e, se elas votam de um jeito diferente do resto do país, o placar das primeiras horas pode mostrar um cenário que não se sustenta até o fim. Foi o que aconteceu no domingo: a liderança trocou de lado durante a noite.
O modelo tenta responder à pergunta que todo mundo faz na frente da TV: essa vantagem é para valer ou ainda pode virar? Em vez de olhar só o placar do momento, ele leva em conta de onde vieram as urnas já apuradas e o que ainda falta chegar.
Com mais informação, há menos ansiedade e menos boato. Em noite de apuração apertada, a cada atualização aparece alguém dizendo que "agora virou" ou que "acabou". Um cálculo que mostra o tamanho real da incerteza ajuda a separar o que é sinal do que é barulho.
É um bom teste de transparência. Um modelo que mostra a própria margem de erro precisa ser conferido depois, com o resultado oficial na mão. Este post é essa conferência.
O que deu certo
- Nunca apontou o vencedor errado. O momento de maior dúvida foi às 19h50, com cerca de 11% apurado, quando a probabilidade calculada para o candidato que acabou vencendo estava em 34%.
- Indicou o vencedor com 80% das urnas apuradas, às 20h53, com probabilidade acima de 95%. Às 21h, com 87,7% apurado, passou de 99,5%.
O que deu errado
A projeção foi pior que a própria contagem. Durante quase toda a noite, o modelo estimou o resultado final cerca de 2 pontos abaixo do que ele de fato foi. Em cinco das seis faixas de apuração que medimos (na outra houve empate), quem simplesmente olhasse o placar do TSE naquele momento teria chegado mais perto do número final do que o modelo.
Percentual de Lula nos votos válidos dos 27 estados (o modelo não considerava o exterior). A linha tracejada é o resultado final nesses estados. Teste interno, não publicado durante a apuração.
Em pontos percentuais. Quanto menor a barra, mais perto do resultado final. Em todas as faixas, exceto 30 a 50% (empate), a contagem do momento ficou mais perto do que o modelo.
No fim, ficou confiante demais. A partir de 99,3% apurado, a margem de incerteza do modelo encolheu a zero, e a projeção ficou 0,1 ponto distante do resultado final. Parece pouco, mas um modelo que diz ter certeza absoluta não pode errar nem por isso.
Por que errou
Entre o 1º e o 2º turno, o voto mudou de forma quase igual em todo o país: cerca de 2,9 pontos na mesma direção em todos os 27 estados, com diferença de meio ponto entre um estado e outro.
O modelo tem um cuidado embutido. Ele sabe que, no começo da apuração, as primeiras urnas podem vir de regiões que favorecem um dos lados, e que isso some quando o resto chega. Por isso desconfia de mudanças grandes logo no início.
Em 2026, esse cuidado custou caro. A versão que usamos só enxergava dados por estado e não tinha como separar as duas coisas: "o eleitor mudou de voto" e "as primeiras urnas vieram de um lado só". Diante de uma mudança real, grande e uniforme, tratou boa parte dela como efeito da ordem de chegada e a descartou. Com 5% apurado, aceitou só um terço da mudança que estava vendo. Foi aceitando o resto aos poucos, conforme a apuração avançava, e daí veio a projeção sempre abaixo do resultado.
Nos testes com eleições passadas, esse cuidado foi justamente o que impediu o modelo de errar o vencedor quando as urnas chegavam numa ordem enganosa. A noite de 2026 mostrou o outro lado da mesma escolha.
O que estamos ajustando
- Dados por município ou por seção, e não só por estado. É a correção principal: com dado mais fino, dá para medir se as primeiras urnas vieram de um lado só, em vez de supor. A coleta passa a buscar só o que mudou desde a última leitura.
- Recalibrar com 2026. Ela vira a quinta eleição de calibração e a primeira com uma mudança de voto tão uniforme.
- Um piso de incerteza. Enquanto houver seção por apurar, a margem do modelo não pode chegar a zero.
- Registro completo de cada leitura, estado por estado. Desta vez guardamos o detalhe por estado só da última leitura, o que limita o quanto conseguimos reprocessar a noite.
- Teste na ordem real de chegada das urnas de 2026, quando o TSE publicar esses dados nos dados abertos. É o teste que o modelo ainda não fez.
- Funcionar em qualquer turno, para que a mesma base sirva às eleições municipais de 2028 e às gerais de 2030.
Não para por aqui
O teste de domingo deixou claro onde o modelo precisa melhorar. Vamos seguir trabalhando nisso até as próximas eleições, sempre com o mesmo critério: só vale o que passar nos testes com eleições passadas, e o resultado oficial continua sendo o do TSE.
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